A consulta invertida – ou de como as tecnologias poderiam (e deveriam) mudar o tradicional encontro entre médicos e pacientes 

O termo pode soar estranho mas remete à chamada “Flipped Classroom” ou “sala de aula invertida”, onde o professor apresenta o conteúdo num meio digital, os alunos o acessam, estudam e depois, em sala de aula, o discutem de variadas maneiras. Tal como no ensino, a ideia é inverter não tanto os papéis mas a forma tradicional de se organizar os encontros.

“Flipped Classroom é um modelo pedagógico no qual o típico ensino com o professor em sala e os elementos da tarefa de casa são invertidos. Vídeos curtos sobre a aula são vistos em casa antes da aula presencial, enquanto que o tempo em sala de aula é dedicado para a realização de exercícios, projetos e discussões.”( http://replay4.me/blog/7-fatos-que-voce-deveria-saber-sobre-flipped-classroom/)

No meio pedagógico, especialmente onde se procura adotar métodos de ensino realmente inovadores – e onde também o acesso à recursos digitais já não é um problema há muito tempo – a sala de aula invertida já é bem conhecida.  A transformação da sala de aula num ambiente colaborativo é uma espécie de continuação daquela atmosfera inclusiva e participativa que todo mundo percebe na web – e que apenas os espíritos mais renitentes conseguem ignorar, diga-se de passagem. Isso porque, na sala de aula invertida, o professor não compartilha apenas dois ou três vídeos com seus alunos. Geralmente isso ocorre dentro e através de alguma plataforma, onde muito mais coisas acontecem, antes do tradicional encontro presencial. Quem nunca experimentou uma dessas plataformas – como, por exemplo, a Edmodo – não vai entender do que eu estou falando…são dezenas de possibilidades de interação possíveis entre os próprios estudantes, entre eles e o professor, biblioteca com artigos e vídeos à disposição, quizzes, testes etc. E tudo, obviamente, com possibilidade de feedback do professor no mesmo instante, já que a plataforma pode ser usada em tablets e celulares. É como se o tempo de aula fosse extendido em muito mais horas, para diferentes situações e contextos. Aliás, em várias outras atividades já existem coisas equivalentes. Uma conhecida rede de bancos, por exemplo,  há muito tempo se apresenta como sendo um banco “30 horas” – 6 horas na agência e mais 24 horas online. Na verdade é o mínimo que se espera, hoje em dia, de qualquer tipo de serviço. Eu disse qualquer tipo de serviço, serviços médicos inclusive…

E este é o ponto que importa discutir, porque talvez a inovação em serviços e atenção médica acabe seguindo por outros caminhos, esquecendo-se de coisas simples e fundamentais, como dar voz ao paciente, simplificar e facilitar processos e aproximar as pesssoas envolvidas. Na verdade, os últimos avanços tecnológicos incorporados pela medicina e profissionais de saúde talvez não tenham chegado ao ponto de proporem quebra de paradigmas fundamentais. Ou se propuseram, por alguma razão não foram ouvidos nem atendidos. O sistema continuou e continua rodando quase que praticamente do mesmo modo, apenas “mais moderninho”, com sua inevitável e providencial roupagem high-tech que é pra ninguém poder falar que não houve avanço. E assim seguimos. Por toda parte – e eu tenho a impressão que isso ocorre até mesmo em países desenvolvidos – pacientes precisam seguir o mesmo protocolo, por exemplo,  se quiserem se consultar com um médico: agendar por telefone (ou online, em alguns casos) e esperar pelo dia marcado. E só. Nada mais. Em resumo é mais ou menos isso, com variações em torno do mesmo tema, como por exemplo quando o paciente tem acesso à um desses sites de grandes clínicas e hospitais, onde estão lá as fotos de todos os profissionais com seus títulos e coisas do tipo. Sites que, justiça seja feita, muitas vezes compartilham muitos materiais de orientação, cartilhas, vídeos etc. Mas que quase sempre  se esquecem de um ponto crucial: permitir ao paciente falar também de si e aproximar as pessoas. Aqueles espíritos mais renitentes me diriam que o “fale conosco” está lá para quem quiser usar, é só escrever. Pois é.

Salvo raros e inspirados encontros, a consulta médica padrão segue se dando num contexto que não mudou quase nada, se compararmos com a consulta do início do século passado. A analogia com a sala de aula é inevitável porque a escola, assim como o consultório, em essência pouco mudou desde então. Ambos estão, é claro, bem mais sofisticados e tecnológicos. Há menos constrangimento e as ideias se expressam de modo muito mais livre, sendo muito mais toleradas etc e tal. Mas não é disto que se trata. Refiro-me à forma e, de certo modo, à sequência com que as coisas precisam acontecer.  Se na escola a “flipped classroom” já chegou, ainda não se pode dizer o mesmo da consulta médica.

O que estaria então impedindo uma mudança nos padrões em que as consultas médicas são realizadas? Por que tudo continua, a rigor, do mesmo jeito que sempre foi – um agendamento prévio, nenhum contato, um tempo decorrido, um encontro. Por que as tecnologias ainda não estão sendo empregadas para ir além deste modelo? Como poderia ser uma “consulta invertida”, possibilitando maior participação do paciente, interação, compartilhamento de dados etc?

O primeiro ponto que é preciso destacar é a diferença que ainda existe entre a digitalização dos pacientes e dos médicos. Embora ambos estejam bastante conectados como cidadãos, as novas tecnologias nem sempre chegam formalmente ao encontro do médico com seu paciente. E, se chegam, não o fazem de maneira equilibrada. Há muita tecnologia envolvendo todas as etapas relacionadas à consulta médica, exceto antes da consulta ocorrer. E a bem da verdade, muitas vezes a tecnologia se concentra muito nas mãos do médico – através dos exames, sistemas de apoio à decisão médica etc – e bem menos nas mãos do paciente que, quando muito, terá realizado alguma pesquisa prévia no “Dr.Google” sobre seu diagnóstico, exame ou medicação. Entre os dois, quando muito, poderá haver alguma troca de mensagens por WhatsApp – quando o médico assim permite e quase mais nada além disso. A despeito de toda a tecnologia que poderia ser usada, a etapa que antecede uma consulta segue naquela espécie de ponto cego onde ninguém a vê… mas ela pode nos atingir.

No que poderia consistir então uma “consulta invertida”? Vamos às suas características e condições, na verdade muito simples:

  • É evidente que o médico precisará, antes de tudo, criar ou organizar materiais informativos sobre sua especialidade, sobre seu perfil profissional, sobre as principais doenças que trata e coisas do gênero. Espera-se que esses materiais sejam na sua maioria escritos pelo próprio profissional, já que nesta etapa o médico estará se apresentando a um paciente que ainda não o conhece. Todo este material poderá estar concentrado, por exemplo, num serviço em nuvem como é o Evernote (é assim que eu faço) ou então estar guardado em alguma  outra plataforma.
  • O médico cria um texto de apresentação e informa neste texto os links dos materiais que achar importantes já compartilhar com o paciente – (veja como eu fiz: http://bit.ly/AosPacientes1aConsulta)
  • O paciente marca a consulta da maneira habitual, por telefone ou online. A partir deste momento, recebe automaticamente um link para um endereço onde estarão reunidas orientações sobre a consulta, informações detalhadas sobre o médico que fará a consulta e outros dados que o profissional julgar necessários.
  • Boa parte deste material elaborado pelo médico deverá incluir formulários para o paciente preencher e enviar, ainda antes da consulta agendada, com o objetivo de informar sobre seu quadro, tratamento em curso ou já realizado etc. Noutras palavras, o paciente deverá ter ferramentas para participar ativamente desta etapa, disponibilizadas de maneira simplificada e direta pelo profissional de saúde e/ou instituição.
  • O paciente deve ter a liberdade para enviar ao médico as informações que julgar necessárias, da forma que achar melhor (via formulário preenchido, vídeo feito com o celular, nota de áudio etc).

A consulta invertida talvez se resuma a um movimento de aproximação do médico em relação ao seu paciente, antes da data marcada para o encontro. É a possibilidade de algumas coisas ocorrerem antes da consulta agendada, permitindo, com certeza,  a aproximação entre as partes envolvidas, a troca de (algumas) informações e, mais do que tudo, o estabelecimento de uma saudável relação entre médico e paciente. Usar uma estratégia como essa tão simples e direta só requer 

No esquema abaixo, uma representação do que ocorre antes da consulta e na ocasião da consulta:

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